quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
A alma imperativa
por caminharem,
mas que nunca se alegrem por ficarem parados.
Que eles sejam o que a minha alma já não pode ser
depois de tanto caminho percorrer
e não mais ao meu corpo pertencer.
Quando conheceu o seu corpo,
minh’alma se fez criança, frágil,
e quis ganhar o mundo.
Ganhou seu mundo,
e o trouxe para dentro de mim.
E te fez caber em minha carne,
compartilhar do meu desejo,
da minha cama,
e agora a minha alma renuncia ao direito de ser eu,
porque você lhe ensinou a ser nós.
Agora as minhas pernas se dobram
de cansaço do não vivido,
e a minha alma se desfaz em mil abraços não dados.
O que eu sinto me sente, te sente,
se faz urgente,
quente,
grávido do não existir.
O que faz com que as acorrentadas sensações
que se alojaram na ponta da língua que não alcança o corpo
pulsem, gritem por você.
Fique.
Fique dentro de mim.
Se sair, meu corpo não mais se reconhecerá.
Não se aceitará.
Não se entregará.
Escute.
Se não ouvir, as palavras vão se calar.
O desejo adormecerá,
A água secará.
Sinta.
Sinta as contrações desse amor
que partiu sem sair e chegou sem andar.
Nasça.
Nasça do caos que eu sou,
e seja a (des)ordem que virei a ser.
Seja o que me move e te explode
para fora de si e, assim, saia eternamente para dentro de mim.
sábado, 17 de setembro de 2011
Indo e vindo
Ir te sentirsendo.
Escrever a deixa.
Cantar a queixa.
Lamentar o fato
de ser ti
e não me.
De ir.
Ser certo.
Esperto.
Deserto.
Deixa eu silenciar
para falar.
Chamar o sim,
dizendo o não.
Viver o talvez,
achando que é a vez
da embriaguez da hora,
da estrela que se fez
Senhora.
Quero te procurar.
Beber o seco.
Secar o leite,
caloroso leito,
que hoje
hei de me achar.
Deixo-te vir.
Me sendosentindo.
Escrevendo a deixa.
Cantando a queixa.
Lamentando o fato
de ser si
e não me.
De vir.
Ser certo.
Ex-perto
Dê certo.
quinta-feira, 23 de junho de 2011
Nós
Qualquer coisa que me faz sentir amado,
que dá vontade de segurá-la na palma da mão.
Sorriso meio de lado
que acompanha um olhinho puxado.
Fenótipo de japonesa,
alma de princesa,
e genótipo de todas as etnias.
O meu conceito de harmonia.
Ele é a minha noção de espaço.
E passo a passo
faço e me desfaço
em seu abraço.
A fé agnóstica .
A dúvida que ninguém explica.
É o escritor que me traduz.
Eu sou o seu texto, o que reluz.
Ela vai, Ele vai, Nós fica.
Tão forte quanto uma escrita.
Tão firme quanto fotografia.
A rima rica da nossa poesia.
domingo, 5 de dezembro de 2010
O último café
Encheu a colher de comida, ficou olhando para os caroços de feijão, e comeu. Esperança ainda tinha, que o gosto do feijão fosse o mesmo do arroz. Sentiu aquele gosto adocicado na boca. Ainda conhecia o gosto do feijão. Gosto ruim. Queria se despedir do mundo. Começou se despedindo das comidas, mesmo das que não gostava. Partiu uma fatia enorme de queijo e comeu com café, assim que acordou. Repetiu o feito, à tarde, e à noite, antes de dormir. E dormiu. Ainda era cedo para se despedir dos sonhos. Precisava deles, para alcançar àquelas pessoas que já não mais eram realidade em sua vida.
Acenou para a avó materna. Sorriu para a paterna. Fez um gesto afirmativo com a cabeça para uma amiga. Surpreendeu-se ao ver um vizinho. Olhou, curiosa, para um desconhecido. Quis ir lá, se apresentar, começar a conversar. Mas não tinha tempo. Gostava tanto das pessoas. Gostava tanto de conversar com elas. Se importava tanto. Sentiu que alguém a tocava. Que menininho lindo! Pegou na mãozinha dele. Acariciou-a com o polegar. Ele sorriu. Ela sorriu. O mundo sorriu. Não queria, nunca mais, ver o mundo chorar, depois de contemplar o seu sorriso.
O barulho da mãe lavando vasilhas, lá na cozinha. Hora de acordar. Não levantou. Recusava-se a se despedir de peixe. Não gostava de peixe. Mas gostava da mãe. Mesmo depois daquela noite. O cheiro de peixe frito a enojava. A mãe queria comer peixe. E comeu. Fritou. Implicou. Ela não comia dobradinha há anos, porque a mãe não gostava do cheiro. Abriu mão. A mãe, não. Ela não abria mão. Não abria mão da filha.
Estava decidido, se despediria, por último, do café. Passaria o dia evitando beber café. Enganar-se-ia com outras bebidas. Ficava com mais vontade de beber café. Ela gostava de ficar com muita vontade de beber café. Minha vida por um café. Brincava consigo. E sorria. Ainda não estava pronta para se despedir da ironia. Um bom sinal.
Os olhos trabalhavam muito. O tapete de retalhos. As cortinas escuras. O chinelo rosa, ao pé da cama. O ventilador, encostado na parede. Os livros mal empilhados na mesa do computador. A janela aberta. Sempre aberta. A televisão nova. Os filmes aos quais nunca assistiu. Os livros não lidos. Os tons com os quais nunca tingiu os cabelos. O cigarro que nunca foi colocado entre os dedos.
O buraco que seu corpo deixou no colchão. Quinze meses. Um dia a mais ou a menos. As feridas que o colchão deixou no seu corpo. As lágrimas que a mãe deixava correr. As lágrimas que ela ocultava. Os sorrisos cortados por soluços. Os abraços abortados pela fraqueza. Os cabelos suados, sujos, maltratados. Os passos nunca dados. Não sentia mais o calor dos pés. Não sentia os pés. O coração, sentia. Mais forte. Muito forte. Muito vivo. Vivo demais. Forte demais. Rápido demais. Não, não tão rápido. Não, não assim. Não aqui. Não agora. Tinha de diminuir. Tinha de parar. Tinha de esperar. Já ainda agora sentia o gosto do café. Do sangue. Da terra. Do céu.
terça-feira, 22 de junho de 2010
A-ha
Preciso (d)isso, ou do (a)mar. Eu mar.
Amar.
Armar o ar e o mar:
as nuvens...
Há mar.
Amargo duas horas nesta sala fechada.
Cheia de vazio.
Nenhum rio.
Nenhum fio.
Nenhum pio.
Ra! Ra! Ra!
domingo, 23 de maio de 2010
A moça estranha
Certo dia ela começou a falar desembestada. Arrumou uma explicação, que deve de ter vindo dos livros que ela sempre carregava na bolsa, para eu não gostar de leite e de queijo. Eu não fico bisbilhotando bolsa de ninguém, não, senhora. Minha mãe me ensinou a não olhar as coisas dos outros. Eu sei dos livros porque ela tirava eles de dentro da bolsa. Tinha hora que tirava com pressa, do mesmo jeito que as parteiras tiravam os meninos da barriga das mulheres lá de perto da minha casa. Eu não via o parto, moça direita não vê essas coisas, mas os meninos dos outros trabalhadores viam, e me contavam como é que era.
Eu lembro direitinho o que ela falou. Sou boa com as lembranças. Na escola, as professoras diziam que eu tinha memória boa, que devia estudar Matemática. Mas eu parei de ir lá, minha mãe disse que eu tinha que cuidar das coisas da casa. Disse que eu era importante, era uma aprendiz de dona de casa. Mas eu fiquei é com muito gosto de ouvir isso. Eu gostava de ir na escola, mas lá eu não aprendia a ser dona de casa. E minha mãe disse que uma mulher tinha que saber cuidar de tudo, tudinho, da casa. Meu pai falava que eu tinha que estudar, que filha dele era inteligente e que todo mundo ia ficar se enchendo de orgulho de mim. Mas minha mãe dizia que não estava dando conta do serviço de casa. Dizia tanto que convenceu meu pai a não me deixar mais ir para a escola, e acabei por ficar em casa ajudando ela.
A moça começou a perguntar do que eu gostava e do que não gostava. Ela ficou assustada, e me fez parar de falar, quando eu disse que não gostava de leite e que não gostava queijo. Mas como é que uma moça criada no interior não gosta de leite e queijo? Eu não gosto de leite, o leite puro. Eu gosto dele com aquele pó de chocolate, gosto dele batido com banana, mas ele puro não desce. Me dá até arrepios de pavor de ter de tomar leite puro. E o queijo me desce azedo, azedo por demais. Mais azedo do que o jiló é amargo. Não gosto de coisas amargas, não, minha senhora.
Eu que me gabava da minha memória, fiquei até admirada com a memória da moça. Ela começou a falar de coisas que eu tinha dito há muito tempo pra ela. Parei de mamar bem cedo. Mamar no peito. Minha mãe estava de resguardo, eu tinha menos de um mês de nascida, meu pai emburrou com minha mãe, bateu a porta do quarto na cara dela. Naquela madrugada, eu bebi água com açúcar, na mamadeira que minha madrinha daqui da cidade tinha levado para mim. Muito boa era a senhora minha madrinha. Que Deus a tenha em um santo lugar. Ela levava iogurte no potinho para mim, sempre que ia lá na minha casa. Levava aquela manteiga amarelinha, que não era igual a manteiga da roça. Manteiga era boa, eu passava nas roscas que mamãe fazia, e comia com café. Às vezes eu clareava o café com um pouco de leite, mas eu não sentia o gosto do leite, aquele gosto puro, aquele gosto ruim.
A moça começou a falar umas coisas que me confundiam. Ela disse que eu não bebia leite porque eu queria muito o leite, e ele tinha sido tirado de mim. E aí, ela disse que eu não comia queijo, porque o queijo me lembrava o leite, que era branco igual’ele. Mas disse que eu gostava muito de iogurte que minha madrinha levava para mim. Eu até juntava os potinhos, até mamãe os ver e jogar fora brigando comigo porque lixo tem de ir pro lixo, e dona de casa que acumula lixo em casa é abandonada pelo marido, que procura outras mulheres na rua. A estranha moça dizia que eu gostava do iogurte porque era o leite idealizado, existe essa palavra, minha senhora? Pensei que eu tivesse esquecido a palavra, então está certo, idealizado. O leite que era dado para mim, como se jorrasse do lugar de criança chupar, no colo da mãe. Não falo essa palavra. Todo mundo sabe onde tem leite na mãe. A senhora bem sabe. Aquele iogurte rosa, cremoso, me descia deslizando feito chinelo deslizando na lama em dia de muita chuva na roça pela garganta.
Ela foi embora. Voltou mais duas vezes, depois do dia que disse por que eu não gostava de leite e queijo. Perguntou o quê eu tinha pra falar com ela sobre os últimos dias, e eu disse que não queria falar, eu queria, queria falar que tinha comido uma pizza gostosa por demais, quando minha tia me trouxe para visitar a cidade. E a pizza era de queijo. Minha tia disse que era de quatro queijos, eu não falei nada, minha tia estava começando a variar da cabeça, onde já se viu, existe um queijo só. O amargo do queijo nem era tão ruim. Era só misturar ele com uma massa, que dava para descer.
Ela disse que também não ia falar. Olhava para mim, eu olhava para o chão, não sabia se tinha que falar. Ela me trouxe iogurte. E não voltou mais. Disseram que ela estava fazendo uma pesquisa, para ser doutora. Nunca vi doutora que não anda de branco e que não receita remédio. Ela era uma moça estranha mesmo. Doutora estranha. Ela nunca voltou para me dizer como é que eu consertava aquele defeito de não gostar de leite e de queijo. Para que estudar, estudar, estudar e não ensinar? Mas ela não era professora, era doutora. A senhora é professora? Se for, pode me ensinar a gostar de leite e de queijo?
segunda-feira, 15 de março de 2010
Hoje eu sonhei com Clarice
Ainda uma lembrança vinda do quarto da mãe e do pai, da mãe mandando o pai tirar as mãos dela. E do pai mandando a mãe lavar a boca com sabão, para nunca mais ousar levantar a voz contra seu marido.
Não, ela não sabia qual era o gosto de sabão. Mas ela sabia que o seu café com leite estava com gosto de sabão. Poderia ser a xícara, mal lavada, com sabão grudado nos cantos, mas preferia acreditar que era um gosto de sabão vindo de outro lugar. Do pensamento, talvez. Disseram-lhe, uma vez, que esses comandos vêm do cérebro, essas coisas de sentir gosto. Seu cérebro estava teimando em dizer-lhe que o café com leite estava com gosto de sabão.
Ela sentia uma necessidade de pensar em um gosto comparável ao gosto do sabão, assim como, agora, eu tenho uma necessidade de palavras que expressem o seu sentir. Quero dizer, o sentir dela. Eu só penso em falar sobre ela. Só penso nela. E o gosto de sabão.
Tem o sabão do banheiro, também. O sabão de corpo inteiro. Menina, mandou a mãe, pare de se esfregar com esse muleque. Cês tão se esfregando feito sabão esfrega em roupa. Que roupa? Não tinha roupa. Mas tinha sabão. A mãe juntou a gordura velha, aquela da fritura, comprou soda, no supermercado, e fez sabão.
Cortou um pedaço da mangueira da mãe, para fazer de canudinho, para brincar de bolinha de sabão. A mãe descobriu, bateu nela. Bateu com a mangueira. Fez cada vergão que ardeu quando ela foi tomar banho e ensaboou o corpo. Dormiu chorando. Imaginou o céu, cheio de estrelas, com milhões de estrelas, e fez um pedido, um pedido só, a todas elas. Queria acordar adulta, grande, no outro dia, para não apanhar mais. Alguma coisa dentro dela doía. O gosto de sabão lembrava a dor. Todas as dores.
Sonhou com Clarice. Nunca conheceu Clarice, nunca viu uma foto dela, mas eu sei que a moça do sonho era ela. Clarice estava na rua, na ruazinha que dá para a escola. Sentada, no banco, no banco de madeira, feito embaixo da árvore, parece uma praça. O velho que passou parece Drummond. Mas ela nunca conheceu Drummond. Nunca viu foto de Drummond. Nunca leu Drummond, mas já nasceu tropeçando em pedras. E se confunde com a fumaça do cigarro. Clarice fumava, Drummond caminhava, e ela, ela sentia gosto de sabão.
Já está quase amanhecendo. O galo já vai cantar. As chaleiras de café já vão começar a trabalhar. O cheiro de café vai invadir minhas narinas. O jornaleiro não vai trazer o jornal, e está na hora de ela acordar. Eu vou observar. Eu gosto de observá-la. Sinto prazer em falar sobre ela, em olhar para ela. Vou ficar quieto, quietinho, quero ser o primeiro a ver a menina grande. A menina moça. A menina mulher.
E se ela imaginou o inferno, no lugar do céu?
- Não lava o coador com sabão, menino, que cê estraga o café.
